Ando sem rumo no meio da multidão nessa grande selva de pedra. Não sei se as pessoas desviam de mim ou eu delas, não faz diferença, sou só mais um garoto de capuz em meio aos outros.
Por anos insisti na ideia de que meu pai ainda estava vivo, procurei
de todas as formas e ainda assim duvidaram. Tentaram me afastar dessa
investigação, mas eu sempre segui e quando todas as pistas finalmente se encaixaram
descobri que não adiantou nada. Todo esse tempo procurando o homem errado. Tudo
o que descobri me levou ao melhor amigo dele, o mesmo que disse no enterro apenas
“Adeus Thomas Hess", sempre achei aquilo estranho, eles eram amigos de
incontáveis missões e ainda assim ele foi frio e não pareceu conhecer meu pai
direito.
Depois disso achei que mudaríamos de casa, passaríamos
dificuldades já que nossa mãe não trabalhava, mas foi ao contrário, continuamos
na casa e a comida só ficou mais farta e requintada. Crescemos em meio a essa
mentira e agora que sei a verdade não posso seguir adiante. Minha irmã não
liga, ninguém nunca ligou, mas agora tenho esses documentos governamentais
passados para mim, minha mãe se foi e os documentos que guardava ficaram
comigo. Documentos autenticados e que dizem a verdade, meu pai está vivo em uma
base militar secreta.
Ela levou esse segredo para o túmulo mesmo sabendo que os
documentos ficariam comigo, talvez não quisesse me preocupar ou acreditasse que
eu não aceitaria algo do governo.
- Droga...
Em
meio a todos esses pensamentos deixo essa palavra escapar. Eu estou em frente a
minha casa, andei sem rumo e no fim acabei aqui, essa casa afastada, grande e
com uma floresta de quintal.
-
Bem vindo de volta panaca.
Um
tapa, essa voz rouca impossível de não reconhecer é lá esta ela, a irmã mais
nova tida como prodígio da computação e informática, seus cabelos balançam
acompanhando o vento calmo do lugar, está cada dia mais parecida com nossa mãe.
-
Como foi lá? O que esses bacanas queriam?
Suspiro
e entrego os documentos, eles dizem que somente eu poderia saber sobre, mas
nesse ponto já não ligo.
-
Não brinca...
Olho
a reação dela enquanto retiro o capuz.
-
Toda essa casa de graça e um cartão sem limites?
-
Você leu tudo?!
Como
um impulso agressivo de alguém que acaba de ter toda sua trajetória ignorada a empurro
e pego os documentos.
-
Calma lá passarinho, já entendi...
Ela
desdenha mais uma vez.
-
Não parece ter entendido!
Mesmo
tentando não consigo abaixar a voz e me controlar.
- Qual
é panaca, ai diz que sua busca não valeu de nada.
Eu fecho
meus punhos sem perceber, talvez se fosse outra pessoa eu já estivesse lhe acertando
socos.
-
Nosso pai “Thomas Hess" foi morto em combate, agora ele atende por outro
nome em outro lugar, ele fez isso por nos.
Lentamente
meu coração se acalma, minha respiração diminui o ritmo.
- A
mamãe nunca disse, mas antes dele ir para esse tal “Projeto” estávamos com
algumas dívidas, por isso conseguimos ficar na casa.
Mais
um suspiro, olho para a casa que me deu muitos momentos bons com meu pai e
outros momentos de solidão e busca.
-
Você só tem dois caminhos agora, pode seguir em frente ou continuar nessa busca
até encontrá-lo cara a cara.
- O
que você faria?
- Eu
já fiz...
Ela sorri enquanto segue andando lentamente pelos ladrilhos até a porta da frente. Entendi que continuar naquele caminha me levaria a ele, mas aquele não seria meu pai, não mais. A segui mais uma vez, só ela tem esse dom.

