- A dona aranha subiu pela parede... - Cantarolou o menino.


- Ah, quer cantar! - A mãe parou no meio da rua, encarando seu filho, enquanto abria um sorriso, parecendo feliz com a ideia.

- A dona aranha subiu pela parede, mamãe. - A voz soou receosa.

- Não filho, não é assim, não repita trechos. - Corrigiu a mãe. - Vamos lá, tente de novo: A dona aranha subiu pela parede...

- E jogaram um extintor! - O garoto gritou, assustado, apontando o dedo para o prédio ao lado.

Então, a mãe arregalou os olhos e virou-se, para a paisagem atrás de si. Lá, uma enorme criatura semelhante a uma aranha gigante subia com passadas violentas e metódicas. Em cima, no décimo andar do prédio, o morador tentava afastá-la com gritos e um extintor de incêndio. Ele falhou, assim como os outros moradores, todos foram mortos pela dona aranha.

Foi quando ela virou para a mãe e seu filho, os que observavam toda a tragédia. E desta forma, a figura hedionda exibiu todos os seus curiosos aspectos. Tinha imensas patas, a face esbranquiçada e vestes negras como as noites mais escuras de inverno. Parecia não ter face na verdade, contudo, uma rachadura formava-se por sua cabeça, onde deveria estar a boca, assemelhando-se à presas vorazes e impiedosas.

E enfim, ela saltou.

Saltou na direção do garotinho.

E sumiu.

Como se tivesse ido para outra dimensão.

Sumiu.

Com o garotinho.

Sumiu.

E a chuva forte a derrubou, mas dessa vez não foi a dona aranha, foi a mãe.

E a água regou o chão gélido daquele bairro, junto as lágrimas da mulher.