Assinado: ZAO
Eu a vi novamente.
Parada, com longos cabelos
enegrecidos, e um vestido tão sombrio quanto a mais profunda e densa noite. Lá estava
ela. Sua face pálida, doentia, de cor marfim e solidez tão real quanto esta
cama em que me deito.
Encarei-a.
Os olhos inexpressivos, a pele
mórbida e o semblante soturno. Não desviei meu olhar de sua perene feição.
Porém nada fez, como sabia que o faria. Apenas fitou-me em plena mudez, sem uma
palavra, sem um som. Minha calma respiração e o pulsar do meu coração ecoavam
por todo o quarto. Frio e vazio.
Mas ela continua a vir. Todas as
noites.
Passei a acordar durante as
madrugadas para encontrá-la estática. No começo, me sentia aterrorizada.
Tentei, de inÃcio, fechar meus olhos e cobrir-me com os lençóis, como uma criança
assustada, esperando que o monstro que imagino desapareceria como mágica. Mas
estou muito velha para isto.
Nas noites seguintes, ela
continuava a me ver. Procurei conversar com ela, perguntar quem, ou o que
queria de mim. Contudo de nada adiantou. Pois ela continuou imóvel e perpétua,
observando à soleira da porta. Como se estivesse esperando.
Ela retornou hoje.
Minha única visitante. A única a
se lembrar de mim. E sozinha, por todo este tempo, também estive aguardando por
ela. Pois, assim como minha convidada, encontro-me imóvel, porém longe de
perpétua. Ela aproximou-se de mim. Veio até o meu leito. Suas longas e
esqueléticas mãos tocaram a minha face. E a princÃpio, o que imaginei ser
gélido e nauseante, tornou-se quente e reconfortador. Como uma sensação
acolhedora que se adentrava por minha alma. E ela se foi, junto com o último
sopro de vida que havia em mim.
Para deixar somente o meu corpo esquecido,
apaziguado nesta cama de hospital.
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