Se você ver o homem azul caminhando, minta para ele dizendo que você não fala, porque se você ver o sorriso do homem azul... sua alma... será contaminada.
Em estradas solitárias e antigas o Homem Azul anda e passeia a balançarCom um coração frio, olhos obscuros e um sorriso de marfimEle vai levá-lo até a última milha distante
Algo havia mudado para esse homem, Frank abriu ainda mais os
olhos e continuou correndo, não parou até chegar em casa. Ele chutou sua
própria porta e irrompeu para dentro, ofegante, olhou ao redor da casa. O suor
escorria por seu rosto e seu coração parecia uma britadeira. Ele ignorou tudo.
Ele precisava ficar limpo. Tinha que lavar as mãos e ficar limpo. Sabão não
funcionou, muito menos água sanitária, ele precisava de água quente. Tinha que
limpar aquelas mãos, esterilizá-las. Ele foi para a cozinha e se abaixou para
vasculhar um dos armários. Tirou uma panela. Ele rapidamente encheu com água e
jogou no fogão, acendendo no máximo. Ele observou enquanto a panela se aquecia e
a água começava borbulhar. Frank esperou até que a água fervesse e então enfiou
as mãos. Elas ficaram vermelhas e empoladas imediatamente sob a água, mas Frank
não disse nada, apenas deu um sorriso vazio e esperou. O sorriso desapareceu e
se transformou em um rosnado após alguns minutos. Ele não estava limpo. Ele
tinha que ficar LIMPO. Ele jogou a água fora do fogão e agarrou o fogão diretamente.
O vapor subiu de suas mãos e ele as ouviu estalar e chiar. Ele começou a sorrir
novamente, mas isso também desapareceu. Ele olhou para suas mãos arruinadas, a
carne ainda estalando e queimando. Não foi o suficiente. Ainda estava sujo, não
limpou. Ele levantou as mãos, as mexeu como se fossem animais mortos e tentou
pensar, logo se iluminando e correndo para a garagem. Ele chutou as coisas,
jogou de lado, se enfureceu até encontrá-la: a lata de gasolina para o cortador
de grama. Foi difícil, mas ele finalmente conseguiu abri-la e despejar uma
quantidade generosa de gasolina em cada mão. Ele ficou lá com as mãos pingando
e percebeu que não tinha como acendê-las. Ele começou a bater os punhos contra
a parede. E então parou quando um sorriso iluminou seu rosto mais uma vez. Ele
correu de volta para o fogão e encontrou um pequeno isqueiro. O agarrou e
começou a clicá-lo enquanto apontava para a mão esquerda. Houve uma faísca e de
repente ambas as mãos estavam queimando intensamente. Frank sorriu. Isso foi
muito melhor. Suas mãos estavam sendo limpas agora.
Um ano depois, Frank sentou-se no final do bar, sem falar
com ninguém. Ele usou um de seus ganchos para puxar o copo e então bebeu o
uísque podre com um canudo. É assim que ele bebia seu álcool agora. Johnny
olhou para Frank e se perguntou o que aconteceu com ele na noite em que saiu do
bar. Ele havia perguntado a Frank, mas Frank não falou mais. Nem uma palavra.
Se ele queria uma bebida, ele apontava. Não há mais política, religião ou clima
para Frank. Apenas silêncio. Ninguém sabia por que ele queimou as próprias
mãos. Simplesmente aconteceu do nada. Johnny deu de ombros, é assim que as
coisas são às vezes. A televisão mostrava o jornal regional, uma imagem mostra
marido e mulher, Samuel havia matado Sarah e logo em seguida se matou, isso de
certa forma deixou Frank entretido, vidrado naquela notícia. Dois homens de
sobretudo adentram o bar e vão diretamente para Frank.
Loucura e Morte são seus velhos amigos e com eles, ele distribui fins terríveis para quem para e fala com Homem Azul que sempre caminha.
Mick sempre foi problema: sempre procurando e sempre
encontrando. Jack e Hugo sabiam disso, andavam com ele desde o ensino médio.
Eles entraram em algumas encrencas ao longo dos anos, roubando carros e
vendendo-os por peças, roubando cigarros de lojas, nada demais, mas o
suficiente para enviá-los para o reformatório mais de uma vez. Mick foi enviado
para o rio por um período de dois anos. Um policial o pegou com mais de um
quilo, mais do que suficiente para mandá-lo por posse com intenção de vender. Jack
e Hugo não estavam com ele quando foi preso e Mick obviamente manteve a boca
fechada. Quando Mick voltou, estava diferente. Antes, ele sempre traçava uma
linha e nunca a ultrapassava. Agora ele era malvado como uma cascavel, sempre
perto de passar do limite. Ele quase matou Charlie durante aquela luta e ele
estava sempre indo para crimes cada vez maiores. Não se tratava mais apenas de
se divertir, tentando aliviar o tédio de uma cidade pequena. Jack não sabia o
que havia acontecido com ele por dentro, mas de alguma forma Mick mudou por
dentro.
Os três estavam no carro de Mick, descendo a rodovia, bem
acima do limite de velocidade. Mick estava dirigindo e ficou em silêncio desde
que pegou Jack e Hugo. Hugo não falou muito, apenas ficou sentado no banco de
trás, esperando que alguém lhe contasse o que estava acontecendo. Jack
sentou-se ao lado de Mick e continuou olhando para ele com o canto do olho. Mick
não estava prestando atenção em ninguém além da estrada e ignorou todas as
tentativas de Jack de iniciar uma conversa. Ele nem sequer disse para onde
estavam indo ou o que eles iriam fazer. Suas noites ultimamente acabaram com
eles dirigindo por todo o lugar, mas nunca fazendo nada. Jack suspirou e
recostou-se no banco, prestes a ver se conseguia dormir um pouco.
- O que é isso?
Jack endireitou-se. Mick tinha realmente falado e ele estava
diminuindo a velocidade do carro. Dois eventos emocionantes em uma noite. Jack
mal podia acreditar. Mick apontou para um homem andando na beira da estrada.
Grande, vestido todo de azul, jeans azul, jaqueta azul, parecia que estava
usando sapatos azuis.
- Esse serve.
Jack deu de ombros, qualquer coisa era melhor do que apenas
dirigir a noite toda, procurando por algo que Mick nunca conseguia encontrar. Mick
parou o carro alguns metros atrás do homem que caminhava, os três saíram do
carro e foram em direção a ele. Ele não se virou, apenas continuou marchando ao
longo da estrada. Jack teve um mau pressentimento, como se ele fosse assustador
ou algo assim. Quem não se viraria para ver quem o estava seguindo? Ele não
correu, não andou mais rápido, não fez nada. Apenas continuou fazendo suas
próprias coisas. As pessoas que agiam assim não tinham com o que se preocupar. Mick
não teve dúvidas e empurrou o homem pelas costas.
- Ei me dá sua carteira ou as coisas vão piorar por aqui.
O Homem Azul parou de andar e se virou. Jack e Hugo não
podiam ver seu rosto, Mick estava bloqueando a visão. Porém, Mick olhou
profundamente naqueles olhos negros. O Homem Azul sorriu para Mick e Mick
sorriu de volta para ele. Mick começou a rir. Jack se assustou. Era um som
ruim, um som que fazia sua pele arrepiar. Mick continuou rindo e então se
virou, o Homem Azul ficou parado e não disse uma palavra, apenas continuou
sorrindo. Mick passou por Jack e Hugo e voltou para o carro. Hugo olhou para Jack
e Jack apenas deu de ombros. Os dois correram atrás e entraram no carro. Nenhum
deles deu uma olhada no Homem Azul e quando Mick fez uma curva brusca no meio
da estrada, Jack se virou para ver o Homem Azul, que já havia voltado a andar
pela estrada.
Um dia se passou, Mick não deu mais notícias para Hugo ou
Jack. Ambos passaram a frequentar o bar do grande Johnny para saber das notícias,
mas nada. Foi no outro dia que tudo aconteceu, Mick dirigiu pela cidade com
ferocidade e parou em frente ao maior banco, por coincidência ou não os guardas
de fora estavam ocupados tomando um café. Mick adentrou o banco com uma lata de
gasolina e ao chegar no meio do salão a jogou para frente e atirou com sua
espingarda de cano serrado. A explosão assustou a todos, os clientes começaram
a correr enquanto Mick manda todos para o chão e atirava mais uma vez. O
segurança de plantão acordou assustado e pegou seu revólver de serviço, mas
Mick se virou e atirou nele à queima-roupa. O guarda voou para trás e caiu no
chão deixando uma trilha de sangue e tripas. Mick colocou a espingarda nas
costas e puxou um revólver Magnum de sua cintura. Ele apontou para os caixas e
reafirmou sua ordem anterior, mas um dos caixas se moveu muito devagar para o
gosto de Mick e acabou caindo sem vida. Um dos outros caixas conseguiu apertar
o alarme silencioso enquanto se ajoelhava no chão.
Mick deu a volta no balcão e bateu sua arma nas fechaduras
das gavetas. Os caixas mantinham os olhos fixos no chão, mas um olhou para cima
e viu os olhos de Mick, olhos completamente tomados pela escuridão. Mick sorriu
e seus dentes amarelados brilhavam como nunca. A nova banda preferida de Mick
chegou dez minutos depois, Cinco carros de polícia, pneus cantando e sirenes
tocando. Mick riu e se animou ao vê-los parar. Ele pegou a espingarda e
recarregou. Mick saiu pela porta, disparando e derrubando dois policiais. Ele
largou a espingarda e segurou novamente sua Magnum, mas isso deu tempo para os
policiais da cidade que sem demora revidaram. Ele riu quando as balas o
atingiram, uma chuva de metal o acertou e o homem ainda se manteve, ele apontou
sua arma para a policial mais próxima, seu sorriso era brilhante e seus olhos
obscuros. A policial apontou e disparou acertando no olho. Sua cabeça estalou
para trás e seu último tiro não foi disparado, Mick caiu no chão.
Naquela noite, Jack e Hugo estavam sentados no bar enquanto
as pessoas falavam sobre aquele desgraçado do Mick que enlouqueceu e apenas riu
quando a polícia atirou nele. Johnny apenas se inclinou para trás e disse:
- É assim que as coisas são às vezes.
Mas Jack sabia melhor, sabia que aquele homem da estrada
havia feito algo e foi por isso que os dois investigadores se sentaram ao seu
lado, conversa jogada fora e Hugo logo se despediu saindo, mas Jack ficou
sabendo que aqueles dois homens haviam ajudado Frank, sabia que eles estavam
investigando essa onda de tragedias da cidade, o que ele não sabia é que a
verdadeira história poderia assustar e por isso aceitou ir junto dos homens. Jack
entrou no carro e estes começaram a dirigir pela cidade fazendo perguntas,
perguntas estranhas de como a cidade era ou como deveria ser, o ponto de ônibus
fica ali mesmo? Aquela casa não parece estranha? Esse sempre foi o estilo de
roupa da cidade? Quando Jack finalmente criou coragem para pedir educadamente
que o deixassem por ali, foi parado por uma revelação inexplicável, os homens
viraram uma esquina de um bairro conhecido por Jack, mas a rua não dava no fim
do bairro e sim no início de uma instalação imensa.
- Que diabos?
Ele sussurrou.
- Só estamos começando senhor Jack, somente começando.
Jack foi convidado a descer do carro dentro daquele lugar
que jamais vira em sua cidade, tecnologia, pessoas bem vestidas e tudo o que Jack
só viu em filmes, os homens o levaram para uma sala e dessa sala ele foi
convidado a adentrar outra sala, maior, aconchegante e com um aparente homem de
patente maior. Este o indicou a cadeira a frente de sua mesa e ofereceu café e água,
mas Jack não seria idiota de aceitar nada daquele lugar, ele sabia muito sobre
isso, já havia assistido dezenas desses filmes.
- O que querem comigo?
Jack fala com a voz tremula enquanto tenta entender a sala
requintada.
- Vou ser direto senhor Jack, somos uma organização que
previne a propagação e criação de seres sobrenaturais, existe um ser sobrenatural
na cidade que está causando essas mortes obscuras e violentas, mas apesar de
sabermos onde ele está não podemos capturá-lo.
- Aquele homem estranho da estrada? É ele que está fazendo
isso?
- Sim e não, o homem que está perambulando pelas estradas da
cidade é como você, ele viu outro homem como aquele e foi coagido a seguir um
caminho especifico.
Jack segue olhando ao seu redor enquanto o homem se inclina
sobre a mesa.
- Nós somos imunes a esse tipo de poder, então não podemos
seguir e encontrar a origem, te trouxemos aqui pois queremos que chegue ao
lugar junto a Franklin.
- Ele aceitou isso?
O homem volta a se endireitar na cadeira.
- Conseguimos amenizar a dor, ele aceitou em troca disso.
- Se essa coisa fez o Mick... eu quero me vingar.
O homem levanta e ajeita seu terno.
- Perfeito senhor Jack, posso dizer então que agora o senhor
é um membro honorário da Ordem, somos um dos braços de uma organização muito
maior que rege o mundo e prometemos acabar com esse ser sobrenatural que
tortura sua cidade.
Ele estende a mão, Jack se levanta e logo aperta a mão do
homem, sem saber ele estava selando o destino de sua cidade, Jack de fato
salvaria todos, mas a que preço? O que ele terá de fazer para isso? É assim que
as coisas realmente são as vezes?
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