Assinado: ZAO
Poucos sabem como começou ou o
que havia antes. Não que isso realmente importe. Porque não houve um antes.
Aconteceu em um tempo em que o próprio tempo não existia e a matéria não
passava de um grão de energia, flutuando na sombra do espaço.
Guerra. Luz e Trevas. Lei e
ordem. Claro e escuro. Bem e mal. Sobreveio a explosão. Indescritível.
Inimaginável. Ensurdecedora. O universo se expandiu, lançando fragmentos na
negritude, formando ondas de poeira cósmica, dando origem às dimensões
paralelas. Mundos inteiros foram criados. Estrelas nasceram e morreram,
nebulosas surgiram nos oceanos de plasma. Galáxias se condensaram. Por bilhões
de anos, os alados vagaram sozinhos, intocáveis no santuário infinito. E,
quando o sexto dia terminou, Deus estava orgulhoso de seu trabalho. De todas as
maravilhas, a espécie humana foi a que ele mais adorou: sua criação podia
aprender, evoluir e amar.
Yehwah partiu para o descanso
do sétimo dia e deixou aos cinco arcanjos a tarefa de comandar os celestes,
reger o paraíso e servir à humanidade, sem interferir em seu curso. Mas,
inflados de ciúme e luxúria, os primogênitos invejaram a raça mortal. Miguel, o
Príncipe dos Anjos, decidiu que os homens não eram herdeiros dignos de Deus e
resolveu tomar a terra de assalto. Enviou assassinos, fomentou cataclismos,
explodiu vulcões, provocou terremotos e congelou o planeta. O paraíso se
dividiu. A primeira revolta foi esmagada, e os conspiradores, expulsos. A
tensão entre os gigantes cresceu, culminando numa batalha devastadora, que
secionou para sempre as hostes divinas. Lúcifer, o Arcanjo Sombrio, desafiou a
autoridade do onipotente Miguel, atraindo um terço de legiões para sua causa.
Mas suas ambições eram igualmente malignas e, vencidos, os anjos caídos foram
atirados ao inferno, onde aguardam o momento oportuno para completar sua
vingança. Milênios mais tarde, os focos da rebelião, sufocados no princípio, se
acenderiam numa nova chama. O Arcanjo Gabriel, servo mais leal do Príncipe
Celeste, recebeu a missão de descer à Haled para planejar uma nova catástrofe.
Mas, em seus corpos terrenos, os anjos são vulneráveis aos sentimentos carnais.
Pela primeira vez, ele provou o calor da alma humana e entendeu o amor que
sentia por Deus. Repudiou as ordens do irmão e assim começou uma nova guerra, a
guerra civil, a eterna disputa pelo paraíso, que persiste até hoje.
Reunidos no Primeiro Céu,
Gabriel e os exércitos rebeldes iniciaram uma gigantesca campanha contra as
forças legalistas, estacionadas na quinta camada. O Quarto Céu, Acheron,
transformou-se numa violenta zona de combate, onde os querubins lutam dia e
noite há mais de dois mil anos. Quando os revoltosos avançaram, derrubando
fortalezas e ganhando posição, Miguel, temeroso de perder o trono, ordenou o
Haniah, o Retorno, determinando que todos os seus aliados que atuavam ou
estivessem no plano material regressassem imediatamente. Com o contingente
inimigo aumentando, Gabriel fez o mesmo, e a Haled foi abandonada. Os vórtices
de acesso às dimensões superiores foram fechados, restando alguns poucos,
guardados por poderosos vigias.
A casta dos Elohins, cuja
natureza é viver entre os homens, obteve permissão especial para continuar no
mundo físico, assim como outros desgarrados, que se recusaram a voltar. A única
condição era que não interviessem no rumo da guerra e estivessem prontos para
servir a seus arcanjos quando o dever os chamasse. Enquanto o paraíso queima
num embate de sangue e espadas, os dois lados estabeleceram um armistício na
terra - uma trégua frágil e delicada, que pode desmoronar a qualquer instante.
Isolada no Sexto Céu, a ordem
dos Malakins traçou suas previsões...
Aquela não seria mais uma
guerra. Havia começado.
Era o princípio do fim.
O início do Apocalipse.

