Assinado: ZAO
Tudo começou quando uma flor nasceu do concreto. Quando o
ser humano conseguiu artificializar toda a paisagem que já foi mapeada, uma
única flor nasceu do concreto. E dela se originaram outros ramos, que logo se
tornaram uma árvore colossal destacando-se no meio da paisagem cinzenta de uma
grande cidade urbana.
Ninguém sabia identificar qual era a espécie daquela árvore.
Parecia um baobá, mas no ano de 2358 essas árvores estavam extintas há centenas
de anos. As pessoas viajavam o mundo para conhecer uma única árvore. Em uma
época como aquela, era uma verdadeira raridade, um milagre. A humanidade
sobrepusera a natureza para a sua vantagem assim que os cientistas descobriram
como produzir oxigênio artificial e papel, ninguém mais precisava das
florestas. Exploramos tudo até o âmago e quando finalmente acabou, não fez
diferença. O Planeta Terra não era mais azul, nem verde, agora variava entre
tons de cinza. Mesmo assim, era incrível e fascinante poder ver e tocar uma
árvore vistosa como aquela. Os mais jovens nem sabiam o que era aquilo. Mas
logo surgiram outras como ela, sempre em grandes núcleos urbanos, a fonte da
artificialidade. Elas eram mais altas que os maiores arranha-céus já
construídos.
A madeira que compunha seus grossos troncos seria de extrema
utilidade, porém ninguém conseguia cortá-las. Mesmo usando os melhores
equipamentos, a casca natural que as protegia era totalmente impenetrável. E
havia outro problema: quando alguém golpeava uma dessas árvores, elas pareciam
agredir de volta. A pessoa acordava no dia seguinte com hematomas. E às vezes,
sangrando profundamente. Os tão poderosos humanos se intimidaram e decidiram
respeitar as plantas, para o seu próprio bem. Porém, elas estavam cada vez mais
numerosas e provocaram uma verdadeira competição de espaço. Suas folhagens, tão
volumosas e altas, começaram a bloquear a luz solar, obstruindo a iluminação
que ninguém jamais percebera o quanto fazia falta. As cidades, tão padronizadas
em sua estrutura elaborada em plástico, começaram a regredir a selva que já
haviam sido a milênios. As pessoas se incomodavam e queixavam-se a um governo
capitalista e instável que não poderia fazer nada na prática.
As árvores penetravam em qualquer barreira. Invadiam as
casas. Impediam a vida das pessoas. Além de que elas não cresciam mais da forma
que chamaríamos de natural. Uma singela florzinha que brotou em um quintal se
transformaria em uma árvore gigantesca de um dia para o outro. A vida foi
ficando insuportável. Era por isso que o ser humano eliminara o verde: não havia
espaço para os dois no nosso mísero planeta. O mais forte predominava. Porém,
ninguém poderia prever que a natureza mostraria a outra face depois de parecer
totalmente aniquilada. Só tiveram noção da gravidade da situação quando uma
jovem garota deu entrada em um hospital. Marcas estranhas surgiam em suas
pernas. Eram esverdeadas, semelhantes a veias grossas... raízes. Logo ela
entrou em coma e foi deixada em observação, pois ninguém conseguira
diagnosticar aquilo. O impossível aconteceu: começaram a crescer galhos de seus
dedos. Seu longo cabelo escuro se transformou em folhas verdes e saudáveis. A
garota estava simplesmente se metamorfoseando em uma árvore. A situação ficara
séria. Inimaginável. A Natureza estava se vingando dos humanos. Tomando o que
lhe foi tomado. O mais sábio a fazer era abandonar o território que era da
Natureza por direito.
A tecnologia avançada da época permitia aos cientistas
criarem naves espaciais tão grandes que poderiam abrigar nações, então a única
solução foi empacotar toda a população da face da Terra em aeronaves e partir
para o espaço. O planeta foi deixado para trás e os seres humanos observaram de
longe, incapacitados, enquanto o verde cobria todo o cinza.
Quem olhasse com atenção poderia ver um rosto sorridente se
destacando na densa mata.
Era a Mãe Natureza abraçando sua cria.

