Assinado: AlphaShadow
Seria eu um traço de sombra? O
grito que você exala antes de morrer? Quem sou eu?
Sou a face do desencontro. Sou um
cadáver despedaçado. Sou uma vítima meio-morta. Eu sou o profeta e trago a boa
nova.
Venho aqui pois já não mais vejo
motivo em continuar nas sombras. Todos já me conhecem, e as sombras são
desconfortáveis. Eu amo a notoriedade. Amo como vocês zombam do meu nome. E vou
amar ver a surpresa de vocês. Mas antes de tudo, vamos ao começo. Pois antes de
ser conhecido como Profeta Risonho, meu nome era Daniel.
Não importa o dia em que eu
nasci, nem o ano. Nem eu mesmo sei quantos anos tenho. Em que ano estamos?
2013? 2014? 2015? Devo ter no máximo 20 anos. Se lhes parece estranho o fato de
eu não ter certeza da minha idade, verão em breve que esse é o mínimo que
alguém como eu podia sofrer.
Quando eu era mais novo, e ainda
me chamava Daniel, eu tinha um irmão. Era três anos mais velho que eu, se
chamava Lucas. Morávamos juntos, eu, ele, meu pai e minha mãe. Ele havia
sofrido um acidente quando bebê, e vivia numa cadeira de rodas. Nunca lembro
bem o que realmente houve. Só lembro da cadeira de rodas. Éramos bem próximos,
ele era um menino engraçado e bem-humorado, sempre fazendo piadas com tudo.
Foi mais ou menos quando ele fez
doze anos que o evento trágico ocorreu Lucas ficou louco. Foi o choque mais
esquisito que eu já vi ele estava na internet, lendo um dos blogs bizarros que
tanto costumava rondar, quando ouvimos um grito vindo do quarto dele. Toda a
família correu, e encontramos Lucas no chão, gritando de pavor. Ele escondia a
cabeça com as mãos, seus óculos estavam com as lentes rachadas, e ele parecia
tentar se proteger de algo. Seu computador estava com o monitor quebrado, como
se ele tivesse metido um soco na tela. Levamos ele para o hospital, mas de nada
adiantou meu irmão estava em um pânico, sempre repetindo sobre um cachorro
demoníaco que o perseguia em todos os lugares, até mesmo nos seus sonhos, com
um sorriso macabro e uma aura profana.
Pouco antes do Natal, lembro-me
que entrava no quarto do meu irmão para chama-lo para jantar. Ele, em sua
cadeira de rodas, me olhava com uma expressão de medo. Em suas mãos estava o
revólver de nosso pai. Como ele pegou aquilo, eu não sei, pois sempre ficava em
cima do guarda-roupas. Eu estava assustado demais para fazer qualquer coisa,
apenas observei em choque o meu irmão levantar o revólver e apontar o cano para
a lateral da própria cabeça. Ele chorava, como se não quisesse fazer aquilo
- Lucas... vamos jantar... solta
isso, por favor - Eu dizia, inocentemente com meus nove anos de idade.
- Ele não vai me deixar em paz...
ele não sai do meu quarto... ele não sai de perto de mim - meu irmão me
respondia.
- Ele me falou de você... Daniel,
me desculpe você tem um trágico destino te esperando
E antes que eu pudesse fazer
qualquer coisa, ele puxou o gatilho. O sangue espirrou na parede,
junto com pedaços do seu cérebro. Por muitos anos essa cena ficou gravada em
minha memória. Minha mãe entrou em depressão por vários anos, meu pai também.
Até que nos mudámos. Passei o resto dos anos evitando todo tipo de contato com
a sociedade. Me dediquei então à literatura, e a escrever. E foi assim até os
meus 14 anos, quando eu conheci uma jovem que mudou para sempre a minha vida.
Era a garota mais linda que eu já havia visto. Quer dizer, eu já havia visto
muitas garotas bonitas, mas nenhuma se comparava aquela deusa de cabelos negros
e olhos verdes.
- Como é seu nome? - Lembro que
lhe perguntei.
- Anna, Anna Karenina - Ela
respondeu.
Ela se interessava pelas minhas
poesias, pela minha conversa, e finalmente depois de tantos anos eu senti a
real felicidade. Era como se nós completássemos um ao outro. Até que os sonhos
começaram. Aqueles pesadelos pérfidos e agoniantes. Eu sonhava com meu irmão
morto vindo me buscar, sonhava que era um garotinho de novo, e um homem muito
alto segurava minha mão e me guiava por uma floresta.
E pelos dias eu tinha aquela
sensação de estar sendo observado, ouvia passos no jardim, via vultos nas
janelas a única coisa que me confortava era a presença de Anna Karenina. A
única garota que realmente amei, e que consegui consumar esse amor em forma
carnal, porém o medo crescia ao meu redor, e tudo piorou uma noite em que meu
medo era tão grande que tive que invadir o quarto de Anna no meio da noite para
me confortar no seu abraço. Porém seus pais acordaram e eu fui proibido de
vê-la. Foi o início da minha perdição. Foi o início da minha loucura.

