Assinado: AlphaShadow
Até que um dia ele me levou. Não
sei bem para onde. Nem como.
Só sei que quando dei por mim
estava em uma espécie de prédio abandonado no meio da selva, usando um grosso
casaco preto e uma máscara no rosto.
Ao meu lado estava uma mulher.
Nunca vi seu rosto, então não sei quem era. Eu a chamei de Vespa. Ela usava um
pesado e amarrotado casaco bege. Seus cabelos loiros e compridos viviam
emaranhados e sujos. E seu rosto, sempre coberto por uma máscara veneziana
branca que cobria seus olhos, usando um gorro marrom-escuro na cabeça. Ela
nunca falava nada, porém ao contrário de mim que usava uma faca, ela matava
suas vítimas com dentadas. Usava uma espécie de dentadura pontiaguda metálica
em sua boca. Em volta de seus lábios havia sempre uma crosta grudenta
vermelho-escuro, que eu suponho ser sangue seco. Por isso mesmo, não reclamava
dela. Nunca ouvi sua voz. Mas sabia que
ela era escrava do homem de terno, assim como eu. Havia algo errado ali. Ela
não parecia humana. Quer dizer, ela era humana por fora, por dentro ela era
algo muito mais profano e eu por que eu não era assim? Por que eu não era tão
consciente das minhas ações?
Com o tempo fui percebendo que
minha consciência não era constante. Pelo dia eu quase não tinha controle das
minhas ações, como se outra pessoa controlasse meu corpo. Pela noite eu tinha
um nível de lucidez maior, mas era sempre dominado por desejos de matar, e
tentações. A primeira pessoa que eu matei por ele me marcou.
Eu estava na entrada de um
matagal. Ela estava caminhando pela calçada, tarde da noite. Não lembro quantos
anos tinha, mais devia ser uns cinco anos mais velha que eu. Usava óculos,
disso eu me lembro muito bem. Andava apressada, olhando para os lados. Com
certeza o homem de terno a estava perseguindo faz tempos. Ela passou por mim, mas eu me mantive quieto,
escondido nas sombras, e a deixei avançar por algum tempo. Depois a persegui
cautelosamente. Não sei de onde surgiu aquela minha habilidade de caminhar sem
ser percebido, ou até mesmo de matar a garota. Eu simplesmente fazia.
A cada passo que eu dava na
direção dela, meu transe aumentava. Era como alguém com sede avançando em
direção a um copo d’água. Eu estava muito perto, e propositalmente fiz um barulho
com os pés para que ela me notasse. Ela me viu e abafou um grito, e fez a
burrice de correr para dentro da floresta. Quase soltei uma risada. Corri
para o meio das folhas e me escondi. Ela parou de correr um tempo depois,
olhando para os lados, perdida. Eu já não me aguentava mais saí do meio das
árvores, e a derrubei no chão. A sensação da minha faca perfurando a carne
jovem e feminina daquela mulher valeu mais do que todos os prazeres desse
mundo. Fui esfaqueando-a com força e brutalidade, enquanto ela gritava desesperada
por ajuda. Mas ninguém a ouviu. Quando ela morreu, iniciei um processo que, por
mais que fosse a primeira vez que realizava, me pareceu extremamente familiar. Removi os órgãos dela, um por
um e os pus dentro do corpo oco. Depois removi seus olhos e
cortei fora sua língua, a pendurei em cima de uma árvore. A imagem daquele
cadáver lindamente trucidado está marcada até hoje em minha mente.
Os dias seguintes eu reunia toda
lucidez que eu podia para ir visitar Anna Karenina. Houve pontos em que eu
consegui gritar pelo seu nome. Nas raras vezes que eu dormia, sempre tinha
pesadelos. A maioria deles, com um garoto em uma cadeira de rodas que vinha me
visitar, com a metade da cabeça estourada, e me perseguia por um labirinto
infinito. E então eu acordava, suado e ofegando.
Estava eu então em uma fatídica
noite em meio às ruínas do prédio abandonado, tentando evitar a presença
maligna de Vespa, quando finalmente tirei minha máscara e a observei. Era uma
máscara muito simples, completamente branca, parecida com aquelas de teatro.
Aquilo não podia me representar aquela máscara era meu rosto, e meu “rosto” não
podia ser assim. Busquei uma lata de tinta preta que havia no porão e comecei a
pintar com o dedo. Por usar muita tinta, duas gotas escorreram, formando algo
parecido com lágrimas. Usei menos tinta no outro olho, e pintei em sua testa o
símbolo do homem de terno, um círculo com um x no meio. Mas algo faltava. No
momento lembrei do meu irmão. Ele dizia que um cachorro o perseguia, com um
sorriso macabro.
Sorriso macabro? Aquela máscara
seria uma eterna homenagem a meu falecido irmão pintei então um sorriso bizarro
na máscara. E ali, finalmente, estava algo que poderia me representar.
Lembro-me que ansiava para ver Anna. Já não aguentava mais vê-la dormindo.
Precisava falar com aquela garota que mudou toda à minha maneira de ver o
mundo. Eu deixava recados para ela, codificados em forma de poemas, mas ela nunca me respondia. Um dia, quando estava para terminar a madrugada, saí
do prédio, e segui em direção à casa de Anna. No caminho, senti que estava
sendo seguido. O homem de terno estava atrás de mim, eu podia sentir. Mas eu
não ia deixar ele tirar de mim a única coisa que me restara.
Cheguei em frente à casa de Anna
Karenina, e como se estivesse me esperando, a vi na porta. Aquilo não podia ser
coincidência. Quando ela me viu, se assustou, mas quando eu tirei a máscara ela
veio correndo em minha direção, com os olhos verdes e arrebatadores cheios de
lágrimas. Nos abraçamos com força por alguns segundos, porém naqueles breves
momentos o mundo pareceu parar foi como se tudo de ruim da minha vida sumisse.
Como se o calor de Anna me protegesse de todas as desgraças do mundo. Durante
os breves segundos em que ela estava nos meus braços, a vida pareceu ficar mais
feliz.
- Por onde você andou esse tempo
todo? - Ela perguntou com a voz chorosa.
Eu não queria responder. Só
queria ficar ali, abraçando-a, sentindo o seu perfume, admirando seus lindos
olhos verdes e passando meus dedos pelos seus longos cabelos negros como a
noite.
- Eu estive com problemas, tudo
aquilo que eu te contei sobre o homem que me observava você acreditava em mim,
não acreditava?
- É claro que sim, Daniel.
- Eu estou preso a ele agora,
Anna.

